Estudo de Caso: Curitiba

STUDIO CIDADES E BIODIVERSIDADE – ESTUDO DE CASO: CURITIBA.

INTRODUÇÃO
Para os próximos 40 anos, as projeções são de que a população mundial irá dobrar e este crescimento ocorrerá principalmente no meio urbanizado dos países em desenvolvimento (UN-HABITAT, 2008). Ao mesmo tempo é nas cidades que a apropriação de recursos naturais é mais pronunciada (ELMQVIST et al, 2003). Cidades dependem da provisão de serviços ecossistêmicos e da biodiversidade (MCDONALD et al, 2008).
A Convenção da Diversidade Biológica/ CDB reconhece a importância dos governos locais das cidades na implementação da conservação, uso sustentável da diversidade biológica e o justo e igualitário uso dos benefícios dos recursos genéticos (SCDB, 2010). Para capacitar os governos locais, conhecidos como governos sub-nacionais, para inserir a biodiversidade em seus Planos Diretores e planejamentos urbanos, a Universidade das Nações Unidas/UNU-Instituto de Estudos Avançados/IAS, o Conselho Internacional de Iniciativas Ambientais Locais/ICLEI, e a CDB, propuseram um guia para tal. Este guia é denominado de Local Biodiversity Strategies and Action Plan /LBSAP, ou seja, Plano Local de Ações e Estratégias para a Biodiversidade (CDB COP, 2010).
Esta iniciativa do guia está de acordo com os princípios definidos em 2010 em Aichi, Japão, onde 192 governos nacionais e a União Européia, signatários da CDB endossaram o Plano de Ação para Biodiversidade para Governos Sub-nacionais, cidades e outras autoridades locais para os anos de 2010 a 2020 (CDB COP, 2010). Este guia está ainda em construção e, para ajudar a lapidá-lo, universidades ao redor do globo foram convidadas a testar o guia através da realização de Studios sobre Cidades e Biodiversidade.
O Studio Cidades e Biodiversidade foi então constituído em uma das Universidades Públicas de Curitiba, por meio de um convite realizado pela UNU-IAS. Este convite foi no sentido da Universidade auxiliar no processo de aplicação e ajustes deste guia para auxiliar os Governos sub-nacionais a desenvolverem seus planos de ação para a Biodiversidade. Como a cidade de Curitiba já faz parte do Global Network on Cities and Biodiversity e está trabalhando em diversas ações para avançar no Plano de Ação para a Biodiversidade, a Universidade faria a análise destas ações aplicando-o nos procedimentos desenvolvidos no LABSAP.

OBJETIVOS
O objetivo geral do Studio é o aprendizado do discente, e como instituição de ensino, testar também o formato do Studio como ferramenta educacional. Os Studios se diferenciam do formato de aprendizagem em aulas convencionais. Eles funcionam como uma sala de aula ou um escritório aberto onde se mesclam atividades de investigação, assessoria e palestras.
São objetivos específicos do Studio: (1) desenvolver o Local Biodiversity Strategies and Action Plan (LBSAP) com estudo de caso sendo realizado na cidade de Curitiba baseado em diretrizes da LBSAP; (2) Avaliar a validade de tais diretrizes e o processo descrito na LBSAP; (3) Preparar o LBSAP da área de estudo em relatório escrito incluindo material visual, como mapas analíticos e de planejamento; (4) Preparar um relatório com feedback das diretrizes da LBSAP; e (5) Preparar um relatório de avaliação do Studio como ferramenta educacional.

METODOLOGIA
Cidades e Biodiversidade passou a ser tema de um Studio multidisciplinar que está sendo rodado em uma Universidade Pública. O Studio agrega professores e alunos de diferentes cursos e níveis de graduação que participam da seguinte forma: palestras temáticas; Estudantes trabalham em grupos de aprendizagem; Atividades geralmente enfatizam aprendizado colaborativo e cooperativo; Os instrutores engajam os estudantes em projetos e ficam disponíveis para supervisão; Responsabilidade pelo aprendizado é colocado no estudante; Atividades são construídas uma em cima da outra, provendo um ambiente de aprendizado dinâmico e integrado que enfatiza o desenvolvimento intelectual pessoal assim como o conteúdo do aprendizado.
As etapas dos trabalhos são então divididas, depois que os componentes do Studio se re-organizam em 9 grupos temáticos de trabalho que são: Biodiversidade; Governança e Gestão; Planejamento e Urbanismo; Ecologia Industrial; Economia Urbana-Ecológica; Sociologia e Desenvolvimento Social; Produção e Consumo; Legislação; Letras Inglês e Português.
Estes 9 grupos desenvolvem a pesquisa por meio de dados secundários e visitas as secretarias municipais munidos de questionários previamente estruturados pelo grupo e orientadores. Levantados os dados secundários e primários, desenvolver um “background” geral da situação sócio-econômica e desenvolvimento urbano/rural da localidade, olhando para tendências e mecanismos como: leis, planos, políticas e iniciativas da sociedade civil.

Por meio da visão geral obtida pelos 9 grupos, é avaliada a governança local como as que estão diretamente ligadas aos principais tomadores de decisão, as questões que são relevantes para as organizações governamentais e não governamentais, assim como as políticas e mecanismos existentes, observando como o tema da biodiversidade se insere nas mesmas.
Após o diagnóstico geral realizado sobre a biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos na localidade levantando por meio de informações tanto espacial como não espacial incluindo as principais espécies, áreas de conservação, conectividade entre as áreas, mecanismos disponíveis,governança, valor econômico dos serviços ecossistêmicos, população beneficiada. Esses dados serão aplicados no formato do guia LABSAP.

RESULTADOS
Desde meados de Março de 2012, vinte e três estudantes de diferentes níveis (graduação, mestrado e doutorado) e 17 professores e pesquisadores fazem parte voluntariamente do Studio, o que inclui também alguns professores e alunos de outras Universidades da cidade. Desta forma o Studio é tanto multidisciplinar quanto interinstitucional e vertical.
O Studio se divide inicialmente em 9 eixos: Biodiversidade e Ecologia; Governança e Gestão; Urbanização e Geografia; Desenvolvimento Social; Economia Urbana e Economia Industrial; Produção e Consumo; Ecologia Industrial, Legislação e Letras Português /Inglês. Cada eixo teve pelo menos um professor orientador. O desenho inicial do Studio dividido nestas áreas de estudo, contudo, não teve a intenção de permanecer, o que de fato se mostrou difícil, porque cada eixo dependia do outro para complementação. Já nas primeiras semanas do Studio os integrantes começam a sentir necessidade de diálogo entre grupos e, um pouco mais tarde, até de fusão com outros grupos, promovendo naturalmente a interdisciplinaridade.
Cada eixo temático recebeu voluntariamente estudantes que cursam disciplinas relacionadas aos eixos temáticos ou não. O Studio é composto por estudantes de arquitetura no eixo temático Economia Urbana e Industrial assim como por estudante de química no eixo de Desenvolvimento Social. Neste sentido o Studio Cidades e Biodiversidade ajudou a promover a formação global do estudante com objetivos muito similares ao Programa Especial de Treinamento – PET da CAPES.
O Studio Cidade e Biodiversidade tem proporcionado um frutífero ambiente para o ensino, pesquisa e extensão. Enquanto que semanalmente os integrantes

assistem palestras selecionadas sobre o tema da Biodiversidade em horários definidos e pré-agendados, os grupos se reúnem dentro de sua conveniência para irem construindo um documento com foco em cada eixo temático. Estes documentos são investigações criteriosas com potencial para se transformarem em publicações.
Visando ainda a formação de um estudante mais bem preparado para o mundo, o Studio incentiva um ambiente bilíngue (português e inglês) onde além da redação do documento final na língua inglesa, os estudantes podem fazer suas apresentações em inglês em seminários e manter sempre que quiserem o diálogo na língua inglesa.
O documento final desenvolvido incluiu uma avaliação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos relevantes para a cidade de Curitiba. Há desta forma, o reconhecimento de que a biodiversidade é importante para Curitiba, mas ainda não existem dados suficientes para identificar conectividade entre os parques/áreas verdes e manutenção ou melhoria na substituição de espécies nativas da flora pelas exóticas.
Os dados existentes estão esparsos e não possuem todas as informações necessárias para identificar uma dinâmica ecológica “urbana”. Falta uma estrutura de gestão de informação, com parceria entre pesquisadores das diversas universidades, para que os resultados de pesquisa possam ser reunidos em um banco de dados único, a fim de auxiliar no processo de desenvolvimento de conhecimento do tema.
Também ficou claro para os 9 grupos que os serviços ecossistêmicos e a biodiversidade de Curitiba se estendem além de seus limites geopolíticos e significa que a avaliação da importância destes não está bem clara para algumas secretarias municipais. Várias secretarias do município não conseguem enxergar o tema biodiversidade nas suas áreas de atuação, o que em si não dificulta a inserção deste tema nas estratégias gerais da Prefeitura, como é realizado no município de Curitiba, mas não conseguem passar para o plano prático de atuação de algumas secretarias.
Portanto, mesmo a cidade de Curitiba tendo o título de Cidade Ecológica, ainda não fica bem claro como o tema biodiversidade se insere na governança local, e como o tema é aliado e conectado às demais secretarias municipais que não a do Meio Ambiente.
O documento final do Studio Cidades e Biodiversidade será levado a COP 11, no qual a UNU-IAS incluirá o trabalho de teste das linhas guias de LBSAP do Studio Curitiba, além do trabalho de outros sete “Studios” rodados por Universidades líderes no mundo com estudos de casos de cidades ao redor do globo.

CONCLUSÃO
A experiência, apesar de recente, tem motivado interações entre muitos jovens estudantes e pesquisadores de diferentes áreas de estudo e níveis. Desta forma ele é tanto multidisciplinar e multi-institucional, como vertical, o que tem enriquecido a experiência educacional e auxiliado no direcionamento do seu objetivo final para meados de 2012, que é um documento sobre o status da biodiversidade na cidade de Curitiba e proposições para sua conservação. Este documento será levado a COP 11 na Índia, em Outubro/2012 pela UNU-IAS. Ao mesmo tempo a continuidade do Studio para 2013 já está sendo prospectada através da formação de novos grupos de pesquisa.
Os Studios são ferramentas de aprendizado raramente utilizados no Brasil, mas com ampla adoção no exterior. O Studio Cidades e Biodiversidade é uma experiência pioneira na Universidade Pública e tem se mostrado uma ferramenta importante para o estudo de temas complexos e com necessidade de imersão como o tema da biodiversidade. No Studio, o estudante deixa de ser fundamentalmente receptor de conhecimento para se tornar ator na formação deste conhecimento. Desta forma, o estudante é corresponsável pelas tarefas do Studio, ao mesmo tempo que é fomentado seu senso de pertencimento e participação dentro do processo de aprendizado do Studio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
UN-HABITAT, 2008. The State of the World’s Cities 2008/2009 – Harmonious Cities.United Nations Human Settlements Programme (UN-Habitat), Nairobi.

ELMQVIST, I., Folke, C., Nyström, M., Peterson, G., Bengtsson, J., Walker, B., Norberg, J., 2003. Response diversity, ecosystem change, and resilience. Front. Ecol.Environ. 1, 488–494.

MCDONALD, R.I., Kareiva, P., Forman, R.T.T., 2008. The implications of conservation. Biol. Conserv. 141, 1695–1703.

SCBD, 2010. Global Biodiversity Outlook 3. Secretariat of the Convention on
Biological Diversity (SCBD), Montreal.

CBD COP, 2010. Plan of Action on Subnational Governments, Cities and Other Local Authorities for Biodiversity. Convention on Biological Diversity Conference of
the Parties. .

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